Quando criança não gostava de seu nome. Sentia-se rude, raimunda; dentre todas as menininhas com nomes de flores, era a erva daninha do jardim. Era motivo de chacotas, já que o nome gerava rimas tão ingratas - raimundaimundaimunda, raimunda cara-de-bunda. Mamãe havia sido cruel com ela, lhe dando um "nomezinho de empregada". A vilã ria-se disso tudo, como era boba sua filha! Nos momentos de crise, arrastava-a para seu colo e lhe fazia um cafuné gostoso. Contava que o nome era de uma tia preta muito boa que ela tivera, e que era assim que gostaria que Raimunda fosse quando mulher-feita; como a tia, toda sorrisos, forte, determinada. A menina limitava-se a fazer alguma careta e fugia do colo da mãe. Ia para o quarto maquinar planinhos vingativos, brincar com os amigos imaginários.
Raimunda era menina mel e pão. Suas cores, seus sabores, dissabores, o cheiro que seu cabelo tinha pela manhã - era toda doce, mas açúcar demais dá cárie. Então procurava esconder sua doçura com uma esfera de maldade, para fazer doer também aqueles que a machucavam. Sua vingança, porém, era sempre servida num prato quentinho e caprichado. Se machucasse Rosa, pedia mil desculpas. Se machucasse Violeta, pedia mil desculpas. Se machucasse Claudinha, Vivi, Juca, fosse quem fosse, pedia mil desculpas. E fugia sempre, para não lhes dar a oportunidade de puxar-lhe o cabelo ou dizer-lhe que nomezinho feio ela tinha. Só sabia que "as crianças de hoje em dia podem ser muito cruéis", não imaginava que elas, de repente, poderiam lhe chamar para brincar de pique-esconde ou amarelinha ou com a mais nova boneca Lu Patinadora que a mãe de Viviane Villas-Boas acabara de lhe comprar, que, além de patinar, era capaz de falar o quanto amava sua dona em cerca de 10 idiomas (e a pobre Vivi precisava tanto dessa demonstração poliglota de carinho..).
Só não pediria desculpas para Carlos. Um que ele nunca foi (e nem nunca seria) alvo de qualquer um de seus planos de vingança. Raimunda simplesmente não podia com ele, sentir sua presença, aqueles olhos malvados olhando pra ela, que.. ai. Dava vontade de chutar a canela fina do menino e sair correndo, engolindo o choro. Ele, que ficava gritando Raimundaimundaimunda embaixo da janela de seu quarto. Ele, que grudava chiclete no seu cabelo e a ameaçava com aquelas minhocas nojentas. Carlos era uma peste, um encosto. Mas um encosto encantador, seria preciso admitir dali alguns anos.
Com o passar do tempo a brincadeira perdeu a força, a graça. Foi morrendo, como morreram aquelas nossas piadas de tempos atrás, lembra? Virou apenas uma lembrança renegada na mente daquelas crianças - daquelas que doem, que elas não ousariam falar sobre. Foi perto do fim que Raimunda aprendeu o truque a ajudaria a contornar o trauma. Claro, ele Carlos era tão esperto; ecoava seu nome a quantidade de vezes necessária para fazer efeito: Raimundaimunda. Mas ela, Raimunda, sozinha descobriria como as palavras perdem sentido se repetidas trocentas vezes. E passava o dia a ecoar Raimunda Raimunda, até ser só Rai, mun, da. O que é Raimunda? É só um nome, um nome, um nome: um leve movimento de lábios esconde a força que a garganta faz, um beicinho que poderia muito bem simular um beijo esperando o movimento final da língua: um beijar os dentes. Rai.mun.da. Era ela, menina bonita ali na esquina, a esperar a irmãzinha todos os dias, sempre afogada em livros.
Não dizia a ninguém, mas procurava a rima perfeita para seu nome. Ah.. se se chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Sentia que não seria "a munda" de ninguém, nunca nunca. Carlos, aquela peste, jamais pousaria seus olhos malvados em sua morenice. Ninguém jamais o faria e Raimunda achava que estava condenada a viver para sempre sozinha, sonhando com idílios que não chegariam. Como são bobas essas meninas de treze anos..
Passados dois anos, tratou de engraçar-se com um menininho qualquer dali da região, que lhe afagasse os cabelos e lhe dissesse o quão bela era, para que se sentisse bem, simplesmente. Escolheu Dudu, um ruivinho todo pintado de cabelo encaracolado. Diziam que seus filhos seriam como rocambole de chocolate e morango, preto-vermelho-preto e a menina ria-se toda ao imaginar como seriam bonitos esses filhos. Andavam de mãos dadas e aninhavam-se um no outro para ver o rosadourado do pôr-do-sol. Seu caderno era todo Dudu, mas só nas primeiras linhas das folhas, para que ele não perdesse o sentido.
Acontece que Dudu já estava naquela fase toda-hormônios a que os meninos não tardam a chegar e essas pieguices sem-graça da namorada já lhe estavam irritando. Dudu não queria só andar de mãos dadas na praça. Não, Dudu também queria provar aos amigos que sabia ser homem. Mas não sabia como fazer o pedido à Raimunda. Então não pediu.
Naquele dia, a menina tinha o cabelo preso por uma trança que mãe fizera começar lá do topo da cabeça. O menino achava que ela ficava tão bonita assim, trançada. Gostava também do vestidinho azul muito fresco que usava. Naquele dia, especialmente, principalmente. Sentaram-se para ver o pôr-do-sol e blábláblá, Raimunda, não vai não. Puxou-a pelas mãos, dizia que queria lhe mostrar algo. Ela corou. Ah, era daquelas meninas que coravam.. E, ainda vermelha, pedia para que Dudu ficasse longe de sua saia, que saíssem logo daquele beco maldito. Achou mesmo que iria morrer naquele dia.
Nunca mais viu o menino depois disso, o diabo que o carregasse. Dudu, para ela, virou apenas folhas no caderno. Dududududududududududududududududududududu. Nada mais que dê's e u's e dê's e u's. Perdera completamente o sentido. Mas fizera com que ela voltasse a ser raimundaimunda. Suja suja suja. Talvez ele tivesse quebrado alguma dentro dela; Raimunda achava que sim. Que nunca mais voltaria a sentir aquele quente-gelado dentro de si, mãos quentes lhe roçando a nuca. Acreditou mesmo que passaria a sentir nada além de cinza.
Não esperava, portanto, que dentro de seu mundinho monocromático apareceria um bilhetinho cor-de-rosa. Reconheceu em seu interior os garranchos de Carlos, que lhe diziam - a ela, Raimunda - que ela - ela, Raimunda - lhe fazia suspirar, suspirar, suspirar. Haha! Ela, Raimunda como era, arrancava suspiros daquele garoto malvado. Ah, se são bobas as meninas, o que não dizer dos meninos?
(Dedico o texto acima à Mariana querida, que, ao me ajudar a escolher seu título, me fez rir a tarde inteira - e até agora, um poquinho. E porque nós duas não conseguimos fugir dos clichés eternos e.. ah, porque, simplesmente. :)
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