- o que faz uma menina como você - tão bonita em seu vestidinho vermelho - chorar?
- minha irmã não me deixa andar de patins na rua.
- mas pense que ela só faz isso porque se preocupa com você. então não chore mais, sim?
- sim..
- ou não. talvez você goste de chorar. me diga, você não gosta? apesar - ou por causa - da dor, não sente um certo prazer? nem que seja lá no fundo de si.. oh, admita.
enxugou o rosto. devia ter uns dez anos. o vestidinho vermelho, a meinha branca, os cílios emaranhados, os olhos inchados - estava, sim, linda. sorriu-lhe um sorriso algo melancólico, porém aliviado.
- sim.
(ou algo parecido. de l'homme qui amait les femmes, de françois truffaut)
o barulho do salto de meu sapato se confunde com o barulho que meu quadril direito faz de vez em quando - pec, pec, pec. e às vezes, é só esse pequepequepear que me entretém e me faz companhia.
são paulo, quando menor me encantava - ainda que me deixasse tristonha,(também) por fazer com que eu me sentisse ordinária. e são paulo ainda me encanta e ainda me entristece e ainda faz com que eu me sinta ordinária, como se houvesse uma menininha com os mesmos sonhos audiovisuais que eu a cada esquina.
e é grande e bela. e cinza, cinza, cinza, opaca. tira de mim a cor, leva de mim embora o brilho. faça-me sozinha, perambulando pela paulista como seus outros fantasmas.
faça de mim o que quiser, contanto que me leve ao cinema de vez em quando e para casa, nos finais de semana.
(para mim) não há melhor fuga (ou esconderijo, que seja) do que aquelas salas sujas, as legendas ora quadradas, ora em letra cursiva, catherine deneuve, giulietta masina, gérard depardieu..
ah, truffaut.. fizesse um filme só para mim..!
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