-Alô?

- Alô? Onde você está?

Eu queria te dizer que estou no deserto do Atacama, mas estou apenas no topo de um prédio. Não no mais alto edifício da Paulista, mas na cobertura de um prédio sem importância. Estou sentada de perna de índio bem na beirada. Meus joelhos ficam para fora. A noite está fria, e eu sinto tanto medo.

Inclino um pouco para frente e a vertigem começa a embaralhar meus pensamentos. Tenho um milhão de motivos para simplesmente me levantar e ir embora como se nunca nem tivesse estado em cima desse edifício. E somente um sentimento que me faz querer que a vertigem aumente mais e mais, até que não seja possível voltar atrás. E esse parece maior do que tudo nesse momento.

É um sábado à noite, ninguém sentiria a minha falta até a tarde de domingo. Ah, já lhe falei daquele menino? Ele era como um domingo, pra mim. Tinha o poder de me fazer sentir tão feliz, esperançosa e em paz, como só uma manhã de domingo faz. Aquela sensação de que ainda temos tempo pela frente, de que o que mundo pára pra que a gente possa andar no parque de mãos dadas. Porém, nada me deprimia tanto e de forma tão rápida quanto domingos pela tarde. Se a manhã era quase cenário bucólico de contos de fada, as tardes dominicais me traziam angústia e preguiça. Preguiça de existir. Ele era como esse domingo, podia me fazer tão feliz e tão triste. Assim, num estalar de dedos. Sem que eu pudesse escolher se queria um ou outro. Sem que eu pudesse fugir.

E aqui estou, querendo fugir de novo. Sempre quero, mas me falta coragem. Não dessa vez, dessa vez eu faço isso por mim mesma e não porque me sinto triste por falta de amor alheio. Dessa vez é porque penso que talvez eu faça mais mal do que bem àqueles que gosto. Porque cobro tanto que não dói só em mim, mas neles também. E sufoco. Tenho ciúmes. Faço cena. Choro. Depois me arrependo. E fico brava comigo mesma por ter sido tão tola. E depois faço tudo de novo. E de novo, e de novo...

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