carta

querido leitor,

tem sido difícil encontrar um que me ouvisse, esses dias. a maria trabalha, o carlos tem duas faculdade, o antônio tem os preparativos da viagem, o mário tem uma namorada, a carla tem amigos demais. queria eu apenas deitar no chão - ah, esse calor - e deixar o azulejo gelado esfriar o que os nervos fazem ferver. e conversar, conversar, conversar. sem despertador ou hora pra acabar. coisa tão simples. tão fácil me ver feliz, tão fácil me machucar. eu sei que o mercado demanda, o dólar sobe, os problemas surgem. eu também, uma vez, deixei escapar a simplicidade das coisas.
deixei de sentir o gelado de uma limonada no primeiro dia do horário de verão. perdi a sensibilidade de captar mais que informações ditas numa conversa. deixei o toque no braço ser apenas um esbarrão. não tive tempo pra livros, amigos ou cerveja por causa do trabalho, da faculdade, das responsabilidades.
eu, agora percebo, tenho dezenove anos. eu não tenho um emprego fixo, um plano para o futuro, um amor eterno e um filho. minha vida não tem um sentido, nem um objetivo. e sou feliz assim. me permito fazer pelo menos uma coisa que gosto, todos os dias. mas queria companhia. queria um oi-empolgado-por-me-ver, queria um abraço, queria que percebessem que eu me sinto sozinha mesmo quando estou cercada de gente, às vezes. queria que aproveitassem mais suas próprias vidas, queriam que se permitissem amar mais.
então, essa sou eu pedindo o que não se pede a ninguém. pedindo um pouco mais de amor.

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