- Vê?
Ela perguntava com uma calma irritante,
- Vê?
Insensível,
- Vê?
Falsa.
Todos os dias, Samanta chegava cedo à faculdade. E eu, todos os dias chegava ainda mais cedo só para vê-la entrar camuflada em montes de livros.
Todas as esperanças de amor são a mesma esperança de amor.
Samanta tomava café preto sem açúcar e fumava cigarros mentolados. Sempre sozinha numa mesa em que cabiam quatro. Lia. Lia muito as poesias de Mário Quintana; eu via. Gostava dele porque fazia versos como os saltimbancos desconjuntam os ossos doloridos. De vez em quando, levantava a cabeça como se procurasse alguém. Como se esperasse alguém. Olhava, mas não me via. Nunca me via. O Henrique, o Henrique ela via.
Aproveitando minha condição invisível, passei a esconder em sua mochila declarações de amor sussurradas ao pé do ouvido. Ela corava. Ela sorria. E corria para abraçar o Henrique, que para ela nada dizia. Não entendia, mas se ela gostava... só lhe sorria.
Todos os casais felizes são o mesmo casal feliz.
Todas as dores de amor são a mesma dor de amor.
De outra forma, ela nunca saberia. E eu queria, queria tanto que soubesse. Eu também, por muito tempo mais, não suportaria. Guardei-o, Samanta, numa linda redoma de vidro ? a qual a agora seguro, com o bilhete que diz esta mesma coisa: seguro, Samanta querida, na ponta de meus dedos brancos o coração que é teu. Vê? Teu. E aqui ele ficará. Para sempre.
Amanda, minha amiga de sempre, a trouxe. E você, Samanta, não sabia o que fazer com o corpo ali estendido, elegantemente vestido.
- Vê? ? Amanda perguntava de modo cínico.
Eu vi as lágrimas quentes cortarem seu rosto, querida. Eu vi a sua alma doída. A Amanda, a Amanda não sabia de nada. Não sabia como eu doía.
Todas os morrer de amor são o mesmo morrer de amor.
Todos os dias, Amanda acordava cedo, penteava mecanicamente os cabelos e olhava seus grandes olhos azuis no espelho. Os cabelos, prendia-os num rabo-de-cavalo, bem alto. Os olhos, escondia-os debaixo dos óculos. E ia encontrar Rafael, todos os dias bem cedo, para que chegassem antes de sua alegria. Ah. O que ele não pedia que ela não fazia?
Amanda, desde sempre, só tinha olhos para Rafael, seu vizinho Rafael, seu melhor amigo Rafael, o lerdo do Rafael. Mas Rafael só tinha olhos para Samanta, que recentemente começara a namorar Henrique, acabando com todos os seus sonhos idílicos. Samanta e Rafael e seus trocentos filhos. Samanta e Rafael passeando em Paris. Samanta e Rafael tomando chá na varanda de casa em tardes de primavera.
Amanda assistindo. Ela seria convidada de vez em quando, naqueles dias reservados aos amigos. O casamento, o ano-novo, o aniversário dos filhos, suas tardes solitárias de domingo.
Ela odiou mesmo o Rafael naquele momento desesperado. Pra que, ela se perguntava, pra que se matar em nome de uma causa vã? Porque para Samanta, porque não para ela? Ela não deixaria que nada lhe acontecesse. Rafael, Amanda sempre te protegeria. Ainda assim, cumpriu a promessa de levar a amada para ver o presente do amigo.
- Vê?
Ela perguntava com uma calma irritante,
- Vê?
Insensível,
- Vê?
Falsa.
Todos os sofrer por amor são o mesmo sofrer por amor.
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