parênteses

(peço desculpas pelo meu aparente descaso com o zine. ando bem ocupada esses dias, com calvin e haroldo, programas infantis, roteiros sobre prostitutas lésbicas, lolita, mulan, cibercultura e etc etc.
mas ando pensando em minhas historinhas, sim. algumas vocês nunca chegarão a ler, mas acontece. são idéias não tão boas assim, ou que eu simplesmente não consigo desenvolver. prometo que logo logo trarei alguma coisa nova a, enfim, quem interessar :)

queria falar desses dias, em que estava andando pela brigadeiro e passei por uma loja no momento em que alguns de seus manequins estavam.. bem, para ser vestidos. achei engraçado eles terem escondido suas vergonhas, com cartolinas pretas - como vemos na tv. e também de hoje, que vi uma camiseta dizendo que beulah loves me, e ela me fez sorrir. beulah, i love you back!

dadas as explicações (senti-me na obrigação de dá-las), peço licença que vou jantar. :)

são paulo (ou algo parecido)

- o que faz uma menina como você - tão bonita em seu vestidinho vermelho - chorar?
- minha irmã não me deixa andar de patins na rua.
- mas pense que ela só faz isso porque se preocupa com você. então não chore mais, sim?
- sim..
- ou não. talvez você goste de chorar. me diga, você não gosta? apesar - ou por causa - da dor, não sente um certo prazer? nem que seja lá no fundo de si.. oh, admita.
enxugou o rosto. devia ter uns dez anos. o vestidinho vermelho, a meinha branca, os cílios emaranhados, os olhos inchados - estava, sim, linda. sorriu-lhe um sorriso algo melancólico, porém aliviado.
- sim.

(ou algo parecido. de l'homme qui amait les femmes, de françois truffaut)

o barulho do salto de meu sapato se confunde com o barulho que meu quadril direito faz de vez em quando - pec, pec, pec. e às vezes, é só esse pequepequepear que me entretém e me faz companhia.
são paulo, quando menor me encantava - ainda que me deixasse tristonha,(também) por fazer com que eu me sentisse ordinária. e são paulo ainda me encanta e ainda me entristece e ainda faz com que eu me sinta ordinária, como se houvesse uma menininha com os mesmos sonhos audiovisuais que eu a cada esquina.
e é grande e bela. e cinza, cinza, cinza, opaca. tira de mim a cor, leva de mim embora o brilho. faça-me sozinha, perambulando pela paulista como seus outros fantasmas.
faça de mim o que quiser, contanto que me leve ao cinema de vez em quando e para casa, nos finais de semana.
(para mim) não há melhor fuga (ou esconderijo, que seja) do que aquelas salas sujas, as legendas ora quadradas, ora em letra cursiva, catherine deneuve, giulietta masina, gérard depardieu..

ah, truffaut.. fizesse um filme só para mim..!

o nome do amor ; para mariana

Quando criança não gostava de seu nome. Sentia-se rude, raimunda; dentre todas as menininhas com nomes de flores, era a erva daninha do jardim. Era motivo de chacotas, já que o nome gerava rimas tão ingratas - raimundaimundaimunda, raimunda cara-de-bunda. Mamãe havia sido cruel com ela, lhe dando um "nomezinho de empregada". A vilã ria-se disso tudo, como era boba sua filha! Nos momentos de crise, arrastava-a para seu colo e lhe fazia um cafuné gostoso. Contava que o nome era de uma tia preta muito boa que ela tivera, e que era assim que gostaria que Raimunda fosse quando mulher-feita; como a tia, toda sorrisos, forte, determinada. A menina limitava-se a fazer alguma careta e fugia do colo da mãe. Ia para o quarto maquinar planinhos vingativos, brincar com os amigos imaginários.
Raimunda era menina mel e pão. Suas cores, seus sabores, dissabores, o cheiro que seu cabelo tinha pela manhã - era toda doce, mas açúcar demais dá cárie. Então procurava esconder sua doçura com uma esfera de maldade, para fazer doer também aqueles que a machucavam. Sua vingança, porém, era sempre servida num prato quentinho e caprichado. Se machucasse Rosa, pedia mil desculpas. Se machucasse Violeta, pedia mil desculpas. Se machucasse Claudinha, Vivi, Juca, fosse quem fosse, pedia mil desculpas. E fugia sempre, para não lhes dar a oportunidade de puxar-lhe o cabelo ou dizer-lhe que nomezinho feio ela tinha. Só sabia que "as crianças de hoje em dia podem ser muito cruéis", não imaginava que elas, de repente, poderiam lhe chamar para brincar de pique-esconde ou amarelinha ou com a mais nova boneca Lu Patinadora que a mãe de Viviane Villas-Boas acabara de lhe comprar, que, além de patinar, era capaz de falar o quanto amava sua dona em cerca de 10 idiomas (e a pobre Vivi precisava tanto dessa demonstração poliglota de carinho..).
Só não pediria desculpas para Carlos. Um que ele nunca foi (e nem nunca seria) alvo de qualquer um de seus planos de vingança. Raimunda simplesmente não podia com ele, sentir sua presença, aqueles olhos malvados olhando pra ela, que.. ai. Dava vontade de chutar a canela fina do menino e sair correndo, engolindo o choro. Ele, que ficava gritando Raimundaimundaimunda embaixo da janela de seu quarto. Ele, que grudava chiclete no seu cabelo e a ameaçava com aquelas minhocas nojentas. Carlos era uma peste, um encosto. Mas um encosto encantador, seria preciso admitir dali alguns anos.
Com o passar do tempo a brincadeira perdeu a força, a graça. Foi morrendo, como morreram aquelas nossas piadas de tempos atrás, lembra? Virou apenas uma lembrança renegada na mente daquelas crianças - daquelas que doem, que elas não ousariam falar sobre. Foi perto do fim que Raimunda aprendeu o truque a ajudaria a contornar o trauma. Claro, ele Carlos era tão esperto; ecoava seu nome a quantidade de vezes necessária para fazer efeito: Raimundaimunda. Mas ela, Raimunda, sozinha descobriria como as palavras perdem sentido se repetidas trocentas vezes. E passava o dia a ecoar Raimunda Raimunda, até ser só Rai, mun, da. O que é Raimunda? É só um nome, um nome, um nome: um leve movimento de lábios esconde a força que a garganta faz, um beicinho que poderia muito bem simular um beijo esperando o movimento final da língua: um beijar os dentes. Rai.mun.da. Era ela, menina bonita ali na esquina, a esperar a irmãzinha todos os dias, sempre afogada em livros.
Não dizia a ninguém, mas procurava a rima perfeita para seu nome. Ah.. se se chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Sentia que não seria "a munda" de ninguém, nunca nunca. Carlos, aquela peste, jamais pousaria seus olhos malvados em sua morenice. Ninguém jamais o faria e Raimunda achava que estava condenada a viver para sempre sozinha, sonhando com idílios que não chegariam. Como são bobas essas meninas de treze anos..
Passados dois anos, tratou de engraçar-se com um menininho qualquer dali da região, que lhe afagasse os cabelos e lhe dissesse o quão bela era, para que se sentisse bem, simplesmente. Escolheu Dudu, um ruivinho todo pintado de cabelo encaracolado. Diziam que seus filhos seriam como rocambole de chocolate e morango, preto-vermelho-preto e a menina ria-se toda ao imaginar como seriam bonitos esses filhos. Andavam de mãos dadas e aninhavam-se um no outro para ver o rosadourado do pôr-do-sol. Seu caderno era todo Dudu, mas só nas primeiras linhas das folhas, para que ele não perdesse o sentido.
Acontece que Dudu já estava naquela fase toda-hormônios a que os meninos não tardam a chegar e essas pieguices sem-graça da namorada já lhe estavam irritando. Dudu não queria só andar de mãos dadas na praça. Não, Dudu também queria provar aos amigos que sabia ser homem. Mas não sabia como fazer o pedido à Raimunda. Então não pediu.
Naquele dia, a menina tinha o cabelo preso por uma trança que mãe fizera começar lá do topo da cabeça. O menino achava que ela ficava tão bonita assim, trançada. Gostava também do vestidinho azul muito fresco que usava. Naquele dia, especialmente, principalmente. Sentaram-se para ver o pôr-do-sol e blábláblá, Raimunda, não vai não. Puxou-a pelas mãos, dizia que queria lhe mostrar algo. Ela corou. Ah, era daquelas meninas que coravam.. E, ainda vermelha, pedia para que Dudu ficasse longe de sua saia, que saíssem logo daquele beco maldito. Achou mesmo que iria morrer naquele dia.
Nunca mais viu o menino depois disso, o diabo que o carregasse. Dudu, para ela, virou apenas folhas no caderno. Dududududududududududududududududududududu. Nada mais que dê's e u's e dê's e u's. Perdera completamente o sentido. Mas fizera com que ela voltasse a ser raimundaimunda. Suja suja suja. Talvez ele tivesse quebrado alguma dentro dela; Raimunda achava que sim. Que nunca mais voltaria a sentir aquele quente-gelado dentro de si, mãos quentes lhe roçando a nuca. Acreditou mesmo que passaria a sentir nada além de cinza.
Não esperava, portanto, que dentro de seu mundinho monocromático apareceria um bilhetinho cor-de-rosa. Reconheceu em seu interior os garranchos de Carlos, que lhe diziam - a ela, Raimunda - que ela - ela, Raimunda - lhe fazia suspirar, suspirar, suspirar. Haha! Ela, Raimunda como era, arrancava suspiros daquele garoto malvado. Ah, se são bobas as meninas, o que não dizer dos meninos?

(Dedico o texto acima à Mariana querida, que, ao me ajudar a escolher seu título, me fez rir a tarde inteira - e até agora, um poquinho. E porque nós duas não conseguimos fugir dos clichés eternos e.. ah, porque, simplesmente. :)




exercício

(ok. eu simplesmente joguei-lhes o textinho que se encontra aí embaixo e desde o momento em que o fiz, sinto-me na obrigação de 'explicá-lo'.
i. ele tem um grande apelo visual e sonoro
ii. eram mais duas horas da manhã e eu estava completando minha segunda noite sem dormir. fiquei repetindo e repetindo essas palavrinhas como se fossem um mantra, para me manter acordada - e para não esquecê-las. e acabou que eu ainda não sei como termina, como amarrar a minha historinha.
não que eu esteja subestimando ninguém. é só que, nossa, eu precisava. antes que a tal menina viesse me acordar em meus sonhos..

e shalala :)

. exercício

(intro)
vira. vira. vira. e vir a ver a vi chegando, como se fosse um catavento - as pás todas ao vento, cada uma de uma cor - era como se visse fotografias vivas de um passado meu não muito distante, ainda que morto em mim.
era ela, menina bonita que esperava ali na esquina, vestidinho amarelo e bolsa de chita. meu futuro em suas mãos e meu passado em seus peitos. ah.. e que peitos! eram esses agora sendo agarrados por um homenzinho qualquer.
(...)

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