about a boy

começou com essa obsessão inexplicável pelos franceses - sotaque, cultura e narizes -lá pelos treze. foi mais ou menos então que decidiu que era como o ludovic. talvez deus, porque não?, teria se enganado e lhe mandado um Y ao invés de um outro X.
era aquele garoto mais zoado da escola, aquele que todos evitavam à face e zombavam às costas. não ligava, era melhor que eles: estava além dessas relações humanóides, sorrisos falsos e intriguinhas. vivia num mundo que era dele e só, um novo sonho cor-de-rosa a cada dia.

mas, é preciso dizer que às vezes sentia vontade de alguém. queria saber se a vida era mesmo como as dos filmes, se o amor prevaleceria, se a amizade triunfaria. um suspiro fundo e a idéia fugia-lhe da mente feito borboleta - parecia tão longe de concretizar-se..
tinha o pai ainda. a mãe foi embora num susto: cansou-se da vidinha medíocre que levavam e foi. deixou o pai sabendo apenas fazer-se de salão de beleza e o filho, coitado, sem seus vestidos de seda e estojinho de maquiagem.

tinha lá seus viciozinhos e para eles vivia. sempre que podia, os satisfazia com um bom filme ou uma boa música, leituras à varanda da sala. gostava de imaginar-se antoine doinel, o incompreendido, cigarrinho no canto da boca e um altar feito à balzac.
tão bem cuidou deles, desses viciozinhos, que eles lhes trouxeram as duas únicas amigas que tivera na vida (e quem precisa de mais?). com uma delas casou-se antes do trinta, por um pacto: amavam-se na amizade, não por esse desejo louco que nos sobe à cabeça quando há paixão. se entendiam, se gostavam, se complementavam; dariam, afinal, um casal muito melhor que muitos que existem por aí. seriam como sartre e simone de beauvoir..
ao primeiro filho que tivesse com a menina que queria ser a bonanza jellybean, a esse primeiro filho não lhe viraria a cara se quisesse, de repente, virar bailarino.

os amantes do círculo polar

otto, otto, otto. diz que gosta de seu nome pois não importa a direção em que é lido: otto é sempre otto; ana é sempre ana.

OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR
ANA AMA OTTO AMA ANA
AMA OTTO AMA ANA AMA
OTTO AMA ANA AMA OTTO


ana ama otto. ama otto ama. otto ama ana. ama ana ama. otto otto otto ama ama ama ana ana ana.

that certain female

(apresentando) that certain female

não sabia sobre as outras garotas, mas ela queria mesmo era ser a bonanza jellybean.
querer, querer. ora. querer todo mundo quer. mas quem, afinal, realiza seus sonhos hoje em dia? se só se realizam os alheios..

o pai, a mãe, a amiga. todos deixaram passar. ela nunca quisera nada na vida, tão branca de sentimentos que era. parecia que estava sempre com o olhar distante e um nó na garganta - e só. parecia nada mais, apenas que havia se esquecido de ali estar.
ninguém sabia de nada. se nunca estava lá, era porque passava a vida a sonhar.

mas queria, sim, ser a bonanza jellybean, mais que tudo na vida: teria uma vidinha pacata e casaria-se com a uma thurman. o pai só fazia rir da filha; a mãe, preocupada, a mandou pra terapia.

terapia! parecia piada. e adiantou-lhe nada, vocês sabem. aos quase trinta foi morar com seu amigo de vida inteira, o menino que queria ser menina. talvez quisesse ter uma filha, menina. aos oito anos lhe presentearia com um pônei ou talvez uma vaquinha..

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