Ele:
Ainda sem reação, ele tentava entender o que tinha acabado de acontecer.
Como assim acabou?
As palavras dela ecoavam na sua cabeça, enquanto ele a via desaparecer entre a multidão, caminhando pela rua, sem nunca ter olhado para trás.
Simplesmente não fazia sentido. Relembrando seus atos dos últimos meses, ele não encontrava nada que pudesse ter feito para desencadear tal ato vindo dela. Tudo parecia estar indo bem.
Era um relacionamento complicado. Depois de um começo explosivo, intenso e apaixonado, vieram vários desentendimentos. Foram várias idas e vindas, e o final parecia inevitável. Mas havia 6 meses que estavam juntos, e o relacionamento parecia estável.
A surpresa maior vinha do fato de que as dúvidas sempre vieram da parte dele, enquanto ela sempre pareceu certa de que o objetivo dela era estar ao seu lado. E ele, por medo, insegurança ou covardia, acabava fugindo do relacionamento. Mas ela estava sempre lá quando ele se arrependia.
Ela nunca deu sinais de que algo estava errado. O relacionamento parecia ter amadurecido. Cada vez mais ela fazia-se necessária, tomando parte em tudo o que se passava na sua vida. A saudade incomodava, é verdade, mas por isso mesmo os encontros eram preciosos, onde todos os minutos eram aproveitados intensamente.
Afinal, o que raios aconteceu?
***
Ela:
Afastou-se lentamente, sentindo o olhar dele em suas costas. Mas não ousou olhar para trás. Não mais olharia para trás.
Seus sentimentos eram contraditórios. A tristeza queimava dentro do seu peito, mas ao mesmo tempo sentia-se aliviada. Aquele peso que estava em suas costas durante os últimos meses finalmente desaparecera.
Ela sabia que havia magoado ele. E nunca se perdoaria por isso. Talvez, apenas talvez, tudo isso poderia ter sido evitado. Mas ela nunca soubera colocar a razão acima do coração. E, na verdade, quem é que sabe?
A culpa era toda dela. Se apenas tivesse sido sincera desde o começo...
Mas não. A verdade machucava, e quebraria todo o encanto do recomeço. Era um recomeço, será? Ou era apenas uma sequência do que já existia?
Foram várias idas e vindas. A cada ida, morria um pedaço do seu coração. A cada vinda, a esperança renascia, e com ela a vontade de dar certo.
Mas, na última ida, tinha sido diferente. Já não havia mais pedaços no seu coração para morrer. E, na última vinda, a esperança não renasceu.
Seu sentimento simplesmente a impediu de não atender aos apelos dele para que voltasse. Ele pediu ajuda, como ela poderia negar ajuda àquela pessoa de quem ela gostava tanto?
No primeiro mês, tudo foi lindo. Eles se gostavam e estavam juntos. Mas isso não era suficiente,e nos meses seguintes, a empolgação foi diminuindo. Ela ainda gostava, mas não tinha mais a esperança. E sem esperança, não havia futuro. E sem futuro, não havia nada.
Ele nunca saberia que não havia perdido-a novamente.
Ele simplesmente nunca a teve de volta.
Eu não suporto esse seu jeito de criança
Que me cativa, me deixa sem jeito
Que pede colo, um acalento ao peito
E que insiste em não deixar a lembrança
Eu não suporto esse seu sorriso largo
Que me derrete, me vence sem perdão
Que quando sei que não sou dele a razão
Torna o meu próprio sorriso amargo
Eu não suporto esse seu olhar inocente
Que me desnorteia, me deixa sem sentidos
Que mesmo minha raiva tendo seus motivos
Acaba sempre confundindo minha mente
Mas, o que eu menos suporto em você
É você ser tão suportável, que chega a ser vital
É me fazer pensar que a você não há outro igual
E não suportar a idéia de nunca te esquecer.
Não quero mais brincar de amor.
Amor queima, sufoca, cega, emburrece.
Ao amar alguém, perde-se o amor próprio.
Amor às vezes pode completar uma vida. Mas não faz uma vida.
Precisamos de companheirismo, de sinceridade, de certezas.
Estabilidade. É essa a palavra. E não há estabilidade no amor.
Por isso não, não quero mais brincar de amor.
Quero andar de mãos dadas na rua.
Quero ficar até mais tarde na cama numa manhã de domingo, sem fazer nada além de simplesmente poder olhar a pessoa ao meu lado.
Quero ver programas bobos na TV em uma noite fria deitada no colo de alguém, e ficar falando mal deles.
Quero deitar a cabeça no travesseiro de noite sentindo o calor de um corpo, sem ter medo de não estar sentindo-o na noite seguinte.
Quero alguém que me faça rir, e a quem eu possa fazer rir.
Quero apenas querer, e nunca precisar.
Então não, não quero mais brincar de amor.
Não quero mais esse frio na barriga.
Não quero mais essa dor no peito.
Não quero mais noites em claro com a cabeça a mil.
Não quero mais esse medo de sofrer.
Não quero mais, nunca mais, brincar de amor.
Saudade, paradoxo da vida
Tão angustiante, tão esplendorosa
Às vezes é saudade doída.
Outras vezes, é saudade gostosa.
Saudade de quem nunca se viu;
Saudade de quem está sempre ao lado;
Saudade eterna de quem já partiu;
Saudade boa do coração amado.
Independente da definição
Existe apenas uma grande verdade
Triste daquele que vive e não
Tem de quem sentir saudade.
À meia luz, os contornos eram mais evidentes.
Deitada ao lado dele, ela observava cada detalhe. Não irritava-se com a insônia. Na verdade, achava-a oportuna nas noites que podia passar ao seu lado. Muitas vezes, costumamos olhar as coisas sem enxergar direito. Não é difícil achar namorados que mal sabem a cor dos olhos da namorada. Mas não era esse o caso. Sem sono, ela ocupava-se em olhar demoradamente para aquele rapaz que dormia tranquilamente ao seu lado. Esse era um segredinho que guardava para si mesma.
O cabelo negro levemente cacheado, e bagunçado pelo sono, caía-lhe como uma moldura desalinhada pela testa, contrastando com a pele branca. As sobrancelhas bem desenhadas eram arcos sobre os olhos que, apesar de fechados naquele momento, ela sabia bem que eram verdes.Havia no rosto sombras de uma rala barba por fazer, da qual ela não gostava muito, e era sempre motivo de discussão. Descendo o olhar pelo nariz bem definido, chegou à boca...
Ah, aquela boca. Lábios macios, cheios, sendo o superior um pouco mais fino que o inferior. Contornou-a levemente com os dedos, num carinho tão respeitoso quanto lascivo, e conteve-se depois que ele resmungou qualquer coisa em seu sono e remexeu-se na cama.
Seu peito subia e descia ritimadamente, numa respiração cadenciada e tranquila. Acariciou-lhe o peito, e foi descendo o carinho pelos braços fortes até tomar entre a sua a mão pequena, de dedos calejados e bem constituídos. Apertou-a como se não quisesse deixá-la escapar.
De repente, ele se remexe na cama novamente, vira-se e a toma em um abraço. E em seu sono, sorri. Ao ver aquele sorriso, ela mesma sorri, tentando imaginar se era com ela que ele estava sonhando naquele momento.
Tomada por uma ternura imensa, ela beijou levemente sua testa, cobriu-o com o cobertor e entregou-se ao sonho naquele abraço sonolento, desejando que aquele momento fosse eterno.
Um rapaz. Uma garota. Dois corações.
Um dia, seus caminhos se cruzam. Na troca de olhares, sentimentos despertam, desejos aflorescem. De repente, tudo o que importa é o objetivo em comum de simplesmente estarem juntos.
- Eu acho que te amo...
Um rapaz. Uma garota. Dois corações unidos.
Felicidade total. Sorrisos que parecem eternos. Abraços apertados, beijos apaixonados, carinhos despretensiosos. Almas gêmeas. Perfeição irreal. Promessas sussuradas ao pé do ouvido.
- Eu te amo. Para sempre...
Um rapaz. Uma garota. Um só coração.
Perfeito demais para ser verdade... Com o tempo, mentiras. Dor. Lágrimas. Palavras impensadas no calor da indignação. Arrependimento, medo, dúvidas. Máscaras que caem. Descobertas...
- Eu te amei. Mas não mais...
Um rapaz. Uma garota. Dois corações?
Saudades vazias. Esperanças vãs. Batalhas solitárias. Olhares vazios e palavras doídas. O que aconteceu? Quem é você? O que você se tornou?... A morte de alguém que ainda vive. Indiferença.
- Não te amo. Mas quero ser seu amigo...
Um rapaz. Uma garota. Um coração, e o que restou do outro.
(Não existem verdades absolutas. Elas são relativas ao momento em que foram ditas.)
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