A casinha azul

Vidro, concreto, asfalto, aço, fumaça.
Tudo meio cinza, meio encardido, meio escuro. Cidade grande tem dessas coisas. Muros, grades, arranha-céus, carros, ônibus, sempre frios, duros e apressados. Talvez seja por isso que aquela casa destaca-se tanto, como se fosse uma peça de um outro jogo guardada na caixa errada.
É um sobradinho simples, estreito, mas que se estende até o fundo do terreno, com um pequeno quintal na frente. Até aí, nada de especial. Mas ele é azul... Azulzinho, da cor do céu que não consegue se ver aqui.
As janelas de madeira também são azuis, mais escuras. As telhas ainda são vermelhas, e combinam com o piso que recobre o quintal e a garagem com pequenos ladrilhos entremeados de linhas brancas. A varanda tem colunas, como aquelas varandas de casa de vó. Mas o que mais chama a atenção são as plantas que estão no quintal e na varanda... Folhagens, flores, vasos e mais vasos que colorem a frente da casa com verdes, brancos, rosas, amarelos, vermelhos... Que junto com o azul da casa, fazem destes poucos metros quadrados um oásis de cor e vida neste meu dia a dia cinza.
É por isso que todos os dias, da sacada do meu apartamento, eu perco alguns minutos olhando a casinha azul. Linda e colorida, espremida entre uma auto-escola de paredes horrivelmente pintadas de amarelo-ovo com propagandas e uma construção de mais um mega empreendimento imobiliário, um enorme prédio de apartamentos que provavelmente vai roubar o sol das belas plantas do quintal.
Mas a casinha continua ali, ignorando os passos apertados da modernidade, como se dentro daqueles muros o tempo passasse mais devagar, num ritmo calmo. Gosto de me imaginar ali dentro quando a pressa me sufoca. E me acalmo. Decidi que a casinha azul é meu refúgio.
Ontem, nos meus poucos minutos de observação e devaneios sobre a casinha azul, vi uma senhora de cabelos brancos saindo pela porta da frente com um regador de metal. E com uma calma carinhosa, ela passou a regar cuidadosamente cada planta.
O sorriso foi imediato.
Atrasei-me para o trabalho, mas nem me importei.

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